Fórum promovido pela revista Exame discute as oportunidades de 2014. E até Nizan, da campanha 'imagina a festa', prevê um choque benéfico de realidade
Giancarlo Lepiani
Ronaldo aparece como uma versão brasileira do Tio Sam na campanha da Brahma que condena o pessimismo em relação à Copa. A AmBev é uma das parceiras comerciais do evento (Reprodução)
"Será a hora H das nossas deficiências . Os problemas serão muito benéficos. A Copa dará ao país uma nova urgência", disse Nizan Guanaes. "A Copa do Mundo deverá ser uma combinação entre nossa capacidade de fazer e nossa disposição em aprender", afirmou Aldo Rebelo
Faltando apenas um ano e meio para a Copa do Mundo, o país já começou a adequar suas expectativas em relação ao evento. Convencidos de que não serão capazes de fazer um Mundial irretocável - em função, por exemplo, dos avanços tímidos em áreas como mobilidade urbana e infraestrutura aeroportuária -, os brasileiros agora trabalham nas poucas soluções que ainda podem ser perseguidas a tempo de melhorar a recepção aos visitantes em 2014. Dentro desse contexto, os tropeços, dados como inevitáveis, ganham uma importância maior que os êxitos - e fazem das oportunidades perdidas pelo país desde 2007, quando foi confirmado pela Fifa como sede do evento, uma herança até mais importante que as melhorias concretas que o Mundial trará. "O grande legado da Copa será a insatisfação que ela vai provocar no país. Não podemos mais fugir de discutir nossos problemas", afirma o publicitário Nizan Guanaes, chairman do Grupo ABC. Ele foi um dos participantes do fórum promovido pela revista Exame, da Editora Abril, que também publica VEJA, para discutir o que o país vai ganhar com o Mundial, na segunda-feira, em São Paulo.
Nizan é um dos responsáveis pela campanha publicitária que faz referência ao pessimismo do brasileiro em relação à Copa - a versão da cerveja Brahma transforma o "imagina na Copa" em "imagina a festa". Nos anúncios da marca, o Mundial de 2014 é retratado de maneira ufanista, como uma enorme celebração em que tudo dá certo. O publicitário, no entanto, é muito mais cético que o tom das propagandas, reconhecendo que a Copa terá, sim, muitas falhas. "Não vamos resolver tudo. A Copa do Brasil não será a Copa da Alemanha. Vamos fazer do nosso jeito", prevê. "Temos tudo para ganhar pontos nos quesitos em que somos fortes. Há coisas que nós fazemos melhor que os outros e que serão vistas por todos. Mas vai faltar força de trabalho qualificada, por exemplo. Em resumo, não há motivo nem para arrogância nem para derrotismo." De acordo com Nizan, o Mundial marcará o momento em que o país ficará frente a frente com suas maiores dificuldades e não terá como fugir dessa realidade. "Será a hora H das nossas deficiências. As falhas e os problemas serão muito benéficos. O melhor dessa Copa é que ela vai colocar o país em comparação com o mundo. O Brasil estava concorrendo com ele mesmo e ganhou, pois o Brasil de hoje é claramente melhor que o Brasil do passado. A Copa dará ao país uma nova urgência."
Apontado por Nizan Guanaes como um provável ponto negativo do país em 2014, o setor de prestação de serviços também é visto com preocupação por outros participantes do encontro. "Nossa área de serviços é amadorística. Dá tempo de melhorar para a Copa, mas precisa ter investimento e vontade", disse Marcos Nicolas, diretor-executivo da Ernst & Young Terco. "Copa é muito mais que estádio. Devemos incentivar um 'choque de Copa' aqui no país. É indispensável ser profissional e copiar os bons exemplos." Assim como Nizan, o executivo diz que o ufanismo é negativo e defende que o Brasil aproveite 2014 para encarar de vez seus problemas. "Otimismo sem inteligência para justificá-lo é ignorância. A gente precisa saber o que nos causa medo e transformar isso em oportunidades." Nicolas citou o número relativamente baixo de brasileiros que dominam outros idiomas como um dos aspectos em que é possível aproveitar a chance e evoluir. Roland de Bonadona, diretor-geral da Accor na América Latina, concorda. "Encerrada a Copa, teremos uma capacidade bem maior de receber as pessoas que falam outras línguas." O executivo admite, porém, que no decorrer do evento isso deve ser um obstáculo ao visitante - tanto que a gigante da hotelaria estuda trazer funcionários de outros países para reforçar suas equipes em 2014. Ainda assim, ele acha que o Brasil ganhará uma projeção positiva. "Temos de incentivar o turista a espalhar lá fora o que ele verá e conhecerá aqui."
Aldo no fórum da Exame: 'Copa não tem segredo'
'Otimismo crítico' - Para o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, o setor privado entendeu bem o que é possível conseguir graças à Copa. Em sua palestra no fórum da Exame, o homem de confiança da presidente Dilma Rousseff nos preparativos para 2014 concordou com os alertas feitos pelos executivos e negou que o governo esteja encarando o evento com uma dose exagerada de otimismo. "Vejo tudo com realismo. Ou melhor, com um otimismo crítico", afirmou, prevendo que o país fará uma Copa "à altura das expectativas". "Nossas estradas e aeroportos estarão perfeitos como os da Alemanha na Copa de 2006 ou de Londres na Olimpíada de 2012? Não. Mas não haverá nenhum problema que inviabilize o evento. A Copa não tem segredo", garantiu. Assim como Nizan Guanaes, o ministro destaca a rara chance que o país terá de dar um salto qualitativo. "Não podemos deixar de aproveitar uma oportunidade como essa para enfrentar dois desafios: melhorar nossa capacidade nas áreas em que já somos bons e superar as deficiências onde ainda não sabemos fazer direito. Ou seja, a Copa deverá ser uma combinação entre nossa capacidade de fazer e nossa disposição em aprender."