http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/estamos-cansados-de-tantas-novidades-afirma-o-filosofo-gilles-lipovetsky-4603364.html
Por: Laura Schenkel em 21/09/2014
O filósofo Gilles Lipovetsky volta a Porto Alegre para falar da sociedade de
hiperconsumo
em uma palestra no dia 24 de setembro, no 23º Congresso de Marketing da
ADVB. Autor de livros como Os Tempos Hipermodernos e O Império do
Efêmero: a Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas, o francês
conversou com ZH por telefone sobre a leveza – assunto do livro que acaba de concluir –, e temas de obras anteriores, como a
aceleração do ritmo de vida, o risco da
hiperindividualização e a
volatilidade eleitoral. Confira, a seguir, trechos da entrevista:
Sobre o que o senhor falará em Porto Alegre?
Vou tratar da sociedade do hiperconsumo. Há, hoje, uma individualização crescente em relação ao consumo, ligada às novas
tecnologias
– mídias, televisão, telefones, internet – que permite aos indivíduos
consumos à la carte. Antes, na sociedade de consumo em massa, tudo era
sincronizado. Agora, não somos obrigados a ver os mesmos programas no
mesmo momento. Cada um gere seu tempo e seu espaço em função de seu
desejo. Igualmente, os grupos sociais exercem menos limites de
comportamento, o papel das marcas se destaca nas compras e cresce o
fascínio dos jovens pelas marcas. Além disso, o
consumo
passou a ser mais emocional. Antes, as pessoas compravam para serem
valorizadas em seu ambiente, era um consumo de status. Isso existe
ainda, e provavelmente sempre existirá, mas, ao mesmo tempo, temos um
consumo cada vez mais voltado ao prazer. Quem escuta música pelo iPod,
por exemplo, faz um consumo hedonístico, para sentir as coisas. É a
dimensão das experiências que ganha importância.
Estamos no caminho de viver em uma bolha, isto é, há um
risco de as pessoas terem menos variedade no consumo de cultura e
informação?
Sim. É um risco dessa hiperindividualização. As pessoas podem escutar
sempre as mesmas músicas, procurar as mesmas informações. Pode ser um
encerramento dos
indivíduos em seu próprio mundo. Se,
de um lado, o hiperconsumismo abre (as possibilidades), também fecha
algumas aberturas. As duas dimensões coexistem.
Assim como há o mercado de luxo, há pessoas que buscam
experiências diferentes, como o Couchsurfing (viajar hospedando-se na
casa de outros), grupos para doar ou compartilhar bens. Como o senhor
enxerga este outro fenômeno?
Com as opções múltiplas e também a crise econômica, há novas formas
de consumo que aparecem – como compartilhamento, aluguel de bens,
comércio de itens de segunda mão. Tudo isso leva alguns a elaborar a
hipótese de que o fascínio do consumo estaria recuando. Não penso assim.
Acho que, muitas vezes, esses comportamentos são uma expressão do
hiperconsumismo, porque as pessoas fazem economias em uma área para
poder continuar consumindo. Querem, por exemplo, dividir o carro ao
viajar para viabilizar essa viagem. Utilizando novas maneiras de
consumir, nós continuamos sendo consumidores. A recusa do consumo
ocorre, sim, mas em grupos bem menores, militantes, ideólogicos, que
creio ser algo relativamente pequeno.
O senhor concluiu há pouco um novo livro? Qual é a sua temática?
Sim. Deve ser lançado em janeiro na França. É sobre a leveza, que se
tornou um fenômeno central na sociedade contemporânea. O tema compreende
corpo, produtos lights, novas tecnologias, como a nanotecnologia, que
busca reduzir e tornar tudo mais leve, o smartphone, o design, a
decoração. É um setor econômico extremamente desenvolvido, e isso está
apenas começando.
A sensação de que o tempo passa mais rápido e nos
atropela não é nova. O romantismo já exprimia esse desejo de escapar
deste ritmo intenso. Hoje, há pessoas que buscam meios para desacelerar,
como ioga e viagens. A leveza, tema de seu próximo livro, é uma reação a
essa tendência de acelerar?
Exatamente. Há, cada vez mais, demanda por novidade. Fazemos mil
coisas ao mesmo tempo, mas há também gente que sofre com isso porque
tudo vai muito rápido. Temos o sentimento de estarmos cansados de tantas
novidades e observamos o cultivo de práticas em busca de uma paz
interior, de uma leveza da vida, de ioga, de formas de religiosidade, de
massagem, de spa, de relaxamento. Vale observar que esses
comportamentos são opostos ao consumismo, mas não completamente. A
meditação é muito praticada em Nova York e em Londres por pessoas que
têm ritmos de vida terríveis, e a meditação é uma maneira de repor as
forças para poder continuar nesse sistema. Não é um modelo alternativo.
Está a serviço da performance.
A aceleração vai continuar?
Acho que sim. Vemos isso com as novas tecnologias e a informática. Agora que temos o
4G, quem tem
3G
reclama que não pode baixar filmes. Vivemos cada vez mais rápido. Há
cada vez mais ofertas e tecnologias que permitem ir rapidamente a
qualquer lugar. Não sei como isso pode diminuir. A aceleração ganha cada
vez mais setores de nossa existência. Isso gera problemas, pois nem
tudo pode ir mais rápido. Na educação, por exemplo, não podemos ir mais
rápido. Aquisição de conhecimento demanda paciência. No futuro, acho
que, além da aceleração, teremos todo um conjunto de técnicas que nos
permitam aceitá-la.
Em A Era do Vazio (1983), o senhor escreveu que Narciso
era o símbolo da revolução individualista. Àquela época, poderia
imaginar que haveria hoje quem publica fotos de si mesmo?
O selfie é um exemplo desse individualismo. É um prolongamento desse
narcisismo. Contudo, é um individualismo paradoxal, pois ele está em uma
busca incessante da aprovação dos outros. Faço uma foto, coloco no
Facebook,
mas aguardo a reação dos outros. É um Narciso incompleto. Posso me
amar, mas me amo mais ainda se os outros me amam, se dizem que sou
bonito, que a foto é interessante. As pessoas tiram selfies para ter uma
recompensa simbólica, da parte dos outros. Com o Facebook, cada um é um publicitário de si mesmo. Cada um faz seu próprio marketing. É um marketing narcisístico.
No livro Metamorforses da Cultura Liberal, o senhor
aborda a volatilidade eleitoral. Acredita que a facilidade de mudar de
lado nas eleições vai crescer?
Há uma volatilidade dos eleitores porque as grandes ideologias são mais fracas. Quando não há grandes
ideologias,
as pessoas mudam em função dos líderes. Acho que, no caso do Brasil, a
candidata evangélica (Marina Silva) está se saindo bem nas pesquisas
porque parece autêntica, e tem uma personalidade que seduz, é isso que
li pela imprensa. Na sociedade atual, direita e esquerda continuam
existindo, é claro, mas há uma proporção cada vez maior de pessoas que
mudam de lado de uma eleição a outra, prova da sociedade do efêmero.
Isso não quer dizer que, necessariamente, a cada eleição, as coisas vão
mudar completamente.
O senhor acredita que a mídia, dando destaque a escândalos políticos, é também causa dessa volatilidade?
Com certeza. Ela tem um papel, mas acho que a causa principal é que
as grandes opções ideológicas não têm mais força. Não acreditamos mais
nelas. Nos anos 1950, se éramos comunistas, éramos totalmente
comunistas. Havia bipolarização e uma adesão forte às ideologias
políticas. Hoje em dia, tudo isso é “light”. E direita e esquerda fazem
políticas parecidas. Assim, um escândalo pode mudar as opiniões. Mas é a
personalidade do líder que se torna cada vez mais importante.